segunda-feira, março 23, 2009

Resposta a ADOC

Caro (a) adoc,

o desconforto que manifesta relativamente à designada ‘sobreposição’ (se é que assim poderemos chamar) de funções e papeis dos educadores sociais e dos assistentes sociais não é para nós, educadores sociais, novo. De facto, parece existir ainda uma fragilidade tanto dos técnicos como das estruturas da educação social em evidenciar, junto de alguns agentes, principalmente junto de alguns assistentes sociais, a singularidade do nosso perfil profissional. Contudo, vemos esse desconforto (por vezes manifestado num tom incompreensivelmente crispado) com bastante estranheza pois até consideramos haverem outros perfis com os quais existe mais similitudes, como os animadores socioculturais, ou técnicos de intervenção social e/ou terapeutas ocupacionais, com os quais não se verifica qualquer “mal-estar”. No entanto, não deixo de considerar que esta discussão é importante, para não dizer essencial, para desfazer mal-entendidos e construirmos assim as melhores condições para que, em equipa, possamos beneficiar os públicos com os quais trabalhamos. É unicamente esta preocupação que me leva a participar neste debate tentando contribuir construtivamente para o mesmo.
Conforme reconheceu, é perfeitamente normal que profissionais de área comuns compartilhem alguns saberes teóricos e práticos. Deram-se já exemplos dessa compartilha entre os psicólogos e os psiquiatras, entre os nutricionistas e os dietistas e poderíamos falar também da mesma situação entre médicos/enfermeiros, arquitectos/engenheiros civis, engenheiros agrónomos/engenheiros agrícolas, veterinários/engenheiros zootécnicos, pasteleiro/cozinheiro, contabilista/toc., entre outros. Em todas estas situações observamos as designadas ‘sobreposições’ e, em todos estes casos, existem as tais diferenças práticas (acrescento também teóricas) por si referidas, que constroem perfis profissionais diferentes. O caso dos educadores sociais/assistentes sociais não é diferente e estas diferenças estão, academicamente, também bem definidas. Quanto a mim, mais que outros motivos, na génese da confusão que refere estará o facto de o curso de Educação Social ainda ser relativamente recente e, por isso, ainda não ter tido o tempo necessário para construir-se na ideia comum da sociedade em geral bem como na totalidade da comunidade dos técnicos que intervêm no ramo da acção social.
Para a compreensão das diferenças entre a Educação Social e o Serviço Social sugiro que se faça uma análise dos currículos dos dois cursos. E, mediante esta, tentar-se compreender a “lógica educacional” de que lhe falou a colega Sílvia Azevedo e que confere ao educador social especificidades técnicas diferentes do assistente social como, por exemplo, as competências pedagógicas que lhe foram mencionadas para a promoção de “(…) competências sociais, pessoais e profissionais dos cidadãos com vista a criar a autonomia das pessoas nos seus processos de vida, permitindo-o crescer e aperfeiçoar-se enquanto pessoa e melhorando a sua qualidade de vida (…)”. Poderemos, sem dúvida, dizer que esta é também a finalidade dos assistentes sociais contudo, enquanto o educador social deposita maior ênfase na educação/promoção de competências do indivíduo, o assistente social, por sua vez, aborda o problema de uma perspectiva essencialmente assistencialista, também fundamental para uma intervenção eficaz, mas diferente. Como é óbvio, existem também pontos comuns. Se pegarmos, por exemplo, no currículo, já pós Bolonha, do curso de Educação Social da Escola Superior de Educação de Santarém (ESES) poderemos identificar cadeiras que conferem as competências de compressão conjectural ou das organizações como, por exemplo, “História Social Contemporânea de Portugal”, “Políticas de Intervenção Social”, “Legislação Social”, “Sociologia da Exclusão e Marginalidade Social”, “Migrações, Identidades e Inclusão social”, “Sociologia das Organizações” e/ou “Gestão das Organizações Sociais”, saberes estes que incidem, em certa medida, com os ministrados em Serviço Social. Contudo, rapidamente identificamos aquelas que nos distinguem claramente dos assistentes sociais e que são as ditas pedagógicas e/ou de intervenção mais directa com os grupos-alvo, por exemplo, as seguintes: “Sociologia da Educação”; “Psicologia do Desenvolvimento”; “Sociologia da Educação Não Formal”; “Educação Ambiental”; “Promoção Social e Cognitiva”; “Intervenção Socioeducativa”; “Promoção de Saúde - oportunidades, estratégias e práticas”; “Educação e Formação de Adultos”; “Dinâmica de Grupos”; “Metodologias de Animação Cultural”; “Animação de Crianças e Jovens”; “Animação de Adultos e Idosos”; “Expressão Dramática”; “Psicossociologia da Família” e/ou “Psicologia do Adulto e do Idoso”, entre outras. Nestas cadeiras, que não são poucas, não encontramos correspondência num currículo de serviço social. Se às cadeiras mencionadas, juntarmos ainda as que conferem a capacidade ao educador social de desenhar projectos socioeducativos como “Metodologias de Investigação em Ciências Sociais” (que Serviço Social também tem), “Desenho e Desenvolvimento de Projectos de Intervenção Socioeducativa” bem “Estatística” e outras está construído um perfil profissional que consideramos distinto dos demais existentes.

Numa exposição que já vai exageradamente longa sugiro-lhe ainda que veja uma edição do Instituto para a Qualidade na Formação (2005) intitulado “O sector dos serviços de proximidade: serviços de acção social - (Estudos Sectoriais: 24) onde é descrito, meticulosamente, a diferença entre os dois perfis profissionais. Neste trabalho, podemos encontrar, bem explicito a missão, o local de exercício da actividade, as condições de exercício, a área funcional, as actividades, as especificidades do mercado de trabalho e prospectivas das duas profissões. Por ser elucidativo, deixo-lhe o que é referido quanto à missão de cada perfil: Técnico Superior de Serviço Social – “Acolhe, informa e oriente os clientes/utilizadores, ajudando-os na resolução dos seus problemas ou encaminhando-os para respostas adequadas, promovendo o seu bem-estar e uma adequada inserção social” (anexo, p.11); Técnico Superior de Educação Social – “Presta apoio técnico de carácter sócio-cultural recreativo a comunidades, grupos e indivíduos em ordem à melhoria das suas condições de vida, participação, integração e promoção social, planeando, organizando e apoiando a realização de acções educativas em espaços sócio-comunitários” (anexo, p.13). É um documento bastante interessante que lhe deixara de forma bem patente aquilo que lhe tentei aqui dizer.

Por último, e porque pediu um exemplo prático, refiro-lhe a minha experiência de voluntário na Associação Portuguesa de Apoio à Vitima (APAV) durante o meu tempo de estudante. A APAV, tem essencialmente dois tipos de estruturas para dar resposta às vítimas. Uma, são os Gabinetes de Apoio à Vitima (GAV) onde as vitimas são atendidas e tem ao dispor técnicos para lhes concederem apoio jurídico, psicológico e/ou social. Depois, tem também as “Casas Abrigo” que são espaços para onde se encaminham as vitimas que estão sobre perigo de vida e onde se desenvolvem competências psicossociais. Eu fui voluntário num GAV onde, sem dúvida, eram muito mais eficazes os assistentes sociais pois grande parte do serviço era de reencaminhamento algo que vocês fazem muito melhor que os educadores sócias. No entanto, sabia da existência de assistentes sociais nas casas abrigo que tentavam desenvolver competências nas utentes. Efectivamente, este é um claro desaproveitamento de recursos mas que, infelizmente, verificamos no nosso Portugal nas mais variadas áreas. Contudo existem também outros casos em que a falta de verba das instituições faz com que estas não consigam ter todos os técnicos que gostariam e, por isso, verificamos por vezes técnicos que não tendo as competências académicas mais indicadas para determinadas funções tentam no terreno suprimir as carências de recursos da forma que podem. Por isso, e por tudo o que lhe disse atrás, considero um completo exagero falar em “usurpação de identidade profissional”. Os educadores sociais têm, quanto a mim, razões que cheguem e sobejem para se sentirem bem e orgulhosos na sua identidade profissional. Espero que, com esta extensa exposição, tenha conseguido fazê-lo entender as diferenças nas nossas formas de intervir. Fique bem claro que a intenção foi unicamente assinalar diferenças e nunca a superioridade ou maiores relevâncias. Considero que todos somos fundamentais e ainda somos poucos. Quanto às queixas que faz de mau profissionalismo em algumas situações, infelizmente, acontece em todas em todas as classes profissionais e a educação social naturalmente também não estará isenta. No entanto, acreditamos que será a excepção e não a regra e que não devemos extrapolar essas infelizes e pequenas amostras para o todo que é, indubitavelmente, diferente. Pelo menos, avaliando-se pelo feedback que temos das instituições onde trabalhamos e pelos níveis de empregabilidade que, comparado com outras realidades, poderemos considerar bastante elevados.

Com os melhores cumprimentos,

Nuno Cunha




adoc disse...

O que é que afinal faz um educador social? Da minha experiência na maior parte dos casos limitam-se a imitar os assistentes sociais e a ambicionarem os seus lugares. Provem que fazem alguma coisa de diferente e que têm algo de novo a acrescentar. É ve-los nas equipas do RSI em que mais não fazem que reproduzir a função dos assistentes sociais. Desculpem a crítica, mas é o que eu vejo.

6:45 PM


Silvia Azevedo disse...
Caro Adoc,

Estava para não lhe responder mas depois achei que lhe devia responder, até por uma questão de profissionalismo.

Um Educador Social não é de facto, um assistente social, e ainda bem pois senão não faria sentido o seu trabalho multi e plurisciplinar.

Tenho que lhe dizer que as suas palavras revelam completo desconhecimento e até um pouco de ignorância em relação aos novos profissionais em questão.

Um Educador Social intérvem numa lógica educacional, a sua metodologia base são a educação e o trabalho de competências sociais, pessoais e profissionais dos cidadãos com vista a criar a autonomia das pessoas nos seus processos de vida, permitindo-o crescer e aperfeiçoar-se enquanto pessoa e melhorando a sua qualidade de vida. Não me parece que seja este trabalho educativo desenvolvido pelos Assistentes Sociais, apesar de achar tambem muito importante o trabalho desenvolvido pelos mesmos.

Nas equipas de Rsi, ambos tem funções distintas e se em algumas equipas não o tem, deveria ter. Pode ser sinal de uma equipa com má coordenação.

Cabe ao educador social do RSI, entre outras funções;

- Estabelecer uma relação de proximidade e de confiança com a família e um conhecimento adequado das dinâmicas familiares

- Estabelecer prioridades e criar condições para o envolvimento activo da família nas das acções que integram o programa de inserção

- Apoiar as famílias, no processo de intervenção estimulando a participação de toda a família

- Desenvolver autonomia nas tarefas do quotidiano familiar, numa perspectiva pedagógica e de suporte à sua realização,incorporando novas aprendizagens, com vista a uma melhor organização familiar e economia doméstica

- Educar para a saúde e para os cuidados pessoais

- Estimular e desenvolver com a família conhecimentos sobre as diversas áreas das competências familiares e sociais básicas

- Promover integração grupal e social

- Planear, organizar e desenvolver actividades na comunidade ou no domicílio

- Incentivar os indivíduos a desenvolver a sua criatividade e inovação entre outras.

Não me parece que estas sejam as funções de um assistente social. O que acontece é que sendo a educação social uma àrea mais recente que serviço social leva a que muitos dos "leigos" da àrea pensem que os dois técnicos são iguais. Os Educadores Sociais, tem Estatuto, tem uma Associação Profissional e um Sindicato, que defende a sua identidade e nunca quererá tirar funções ou repeti-las.

Se existem equipas de RSI que estão a ser mal coordenadas e daí os técnicos repeitam o mesmo trabalho existem outras que eu conheço e que funcionam muito bem.

Saudações educativo-sociais,

SA

3 comentários:

adoc disse...

1) Não vejo por parte dos educadores sociais com que contacto essa preocupação de distinguir papéis. O que vejo é uma certa passividade. Sabe que já me confrontei com colegas seus que perante os utentes se identificam como "assistentes sociais" ou que em reuniões não corrigem essa confusão. Parece-me um caso de usurpação de identidade profissional e isso à luz da lei é grave. Causou até alguma polémica uma reporatgem publicada no ano passado em que uma entrevistada, educadora social, era retratada como assistentes social e não vi a vossa associação ou sindicato tomarem qualquer posição. Ou seja, cabe a cada colega seu ter a iniciativa de mostrar que faz algo de diferente. Que fique claro que nada tenho contra a existência da profissão de educador social, pelo contrário. Sou é contra situações de usurpação de identidade profissional, de sobreposição de funções e de papéis. Se denoto algum desconhecimento em relação ao que faz um educador social, a culpa é dos vários com que tenho contactado. A culpa não está só nas coordenações, mas também nos próprios; 2) Da lista de funções que supostamente compete aos educadores sociais, verifico demasiada coincidência com o Serviço Social, profissão que como sabe já anda neste mundo há mais de um século... Poderia até dizer que praticamente todas pertencem ao espectro do Serviço Social, tendo muitas delas sido desenvolvidas ao longo de várias gerações de assistentes sociais nos mais variados países. Aliás as escolas norte-americana, britânica e sul americana são pioneiras no desenvolvimento das metodologias de intervenção dos assitentes sociais. Reconheço, contudo, uma certa normalidade nalgumas dessas coincidências, dado as áreas serem, de facto, comuns, bem como, os respectivos públicos-alvo. E reconheço, até, que o exemplo que utilizou da dicotomia psicólogo-psiquiatra, é feliz e até poderia acrescentar o caso dos nutricionistas-dietistas. Ainda assim, verifico mesmo nesses casos, diferenças claras a nível prático, embora a maioria das funções sejam idênticas. No caso que estamos a discutir é que não consigo vislumbrar por parte dos educadores sociais um esforço diferenciador. Mas atenção, que não se pense que essa diferenciação se faz numa lógica concorrencial: em que «nós educadores sociais temos de ser melhores que os assistentes sociais». Aquilo que eu gostaria de ver era mais: «nós educadores sociais, fazemos diferente e complementamos o trabalho dos assistentes sociais». Se consiguerem fazer isso, serão bem-vindos e serão uma mais-valia. Por isso, quando diz que não lhe parece que aquelas sejam as funções dos assistentes sociais, parece-me não estar a entrar por um bom caminho e estará a dar-me razão nas críticas que formulei. Não trabalho no RSI, mas garanto-lhe que quer na minha área, quer em praticamente todas as outras, a grande maioria das nossas funções são aquelas. Sei que às vezes os assistentes sociais são acusados por fazerem muito trabalho de secretária, mas tal acontece pela insuficiência de assistentes sociais na maioria dos serviços. Mas não vejo os educadores sociais a fazerem diferente. Não se pense também que o trabalho de terreno é para uns e o de secretária para outros. O trabalho de terreno, de contacto directo com as populações foi uma das dimensões impulsionadoras do aparecimento da profissão de assistente social; 3) Lanço-lhe também um desafio. Troque-me por miúdos algum do trabalho do educador social, ou seja, com exemplos práticos. Talvez fique mais fácil entender a vossa intervenção.

Samanta disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Nuno Godinho e Cunha disse...

Caro (a) adoc,

o desconforto que manifesta relativamente à designada ‘sobreposição’ (se é que assim poderemos chamar) de funções e papeis dos educadores sociais e dos assistentes sociais não é para nós, educadores sociais, novo. De facto, parece existir ainda uma fragilidade tanto dos técnicos como das estruturas da educação social em evidenciar, junto de alguns agentes, principalmente junto de alguns assistentes sociais, a singularidade do nosso perfil profissional. Contudo, vemos esse desconforto (por vezes manifestado num tom incompreensivelmente crispado) com bastante estranheza pois até consideramos haverem outros perfis com os quais existe mais similitudes, como os animadores socioculturais, ou técnicos de intervenção social e/ou terapeutas ocupacionais, com os quais não se verifica qualquer “mal-estar”. No entanto, não deixo de considerar que esta discussão é importante, para não dizer essencial, para desfazer mal-entendidos e construirmos assim as melhores condições para que, em equipa, possamos beneficiar os públicos com os quais trabalhamos. É unicamente esta preocupação que me leva a participar neste debate tentando contribuir construtivamente para o mesmo.
Conforme reconheceu, é perfeitamente normal que profissionais de área comuns compartilhem alguns saberes teóricos e práticos. Deram-se já exemplos dessa compartilha entre os psicólogos e os psiquiatras, entre os nutricionistas e os dietistas e poderíamos falar também da mesma situação entre médicos/enfermeiros, arquitectos/engenheiros civis, engenheiros agrónomos/engenheiros agrícolas, veterinários/engenheiros zootécnicos, pasteleiro/cozinheiro, contabilista/toc., entre outros. Em todas estas situações observamos as designadas ‘sobreposições’ e, em todos estes casos, existem as tais diferenças práticas (acrescento também teóricas) por si referidas, que constroem perfis profissionais diferentes. O caso dos educadores sociais/assistentes sociais não é diferente e estas diferenças estão, academicamente, também bem definidas. Quanto a mim, mais que outros motivos, na génese da confusão que refere estará o facto de o curso de Educação Social ainda ser relativamente recente e, por isso, ainda não ter tido o tempo necessário para construir-se na ideia comum da sociedade em geral bem como na totalidade da comunidade dos técnicos que intervêm no ramo da acção social.
Para a compreensão das diferenças entre a Educação Social e o Serviço Social sugiro que se faça uma análise dos currículos dos dois cursos. E, mediante esta, tentar-se compreender a “lógica educacional” de que lhe falou a colega Sílvia Azevedo e que confere ao educador social especificidades técnicas diferentes do assistente social como, por exemplo, as competências pedagógicas que lhe foram mencionadas para a promoção de “(…) competências sociais, pessoais e profissionais dos cidadãos com vista a criar a autonomia das pessoas nos seus processos de vida, permitindo-o crescer e aperfeiçoar-se enquanto pessoa e melhorando a sua qualidade de vida (…)”. Poderemos, sem dúvida, dizer que esta é também a finalidade dos assistentes sociais contudo, enquanto o educador social deposita maior ênfase na educação/promoção de competências do indivíduo, o assistente social, por sua vez, aborda o problema de uma perspectiva essencialmente assistencialista, também fundamental para uma intervenção eficaz, mas diferente. Como é óbvio, existem também pontos comuns. Se pegarmos, por exemplo, no currículo, já pós Bolonha, do curso de Educação Social da Escola Superior de Educação de Santarém (ESES) poderemos identificar cadeiras que conferem as competências de compressão conjectural ou das organizações como, por exemplo, “História Social Contemporânea de Portugal”, “Políticas de Intervenção Social”, “Legislação Social”, “Sociologia da Exclusão e Marginalidade Social”, “Migrações, Identidades e Inclusão social”, “Sociologia das Organizações” e/ou “Gestão das Organizações Sociais”, saberes estes que incidem, em certa medida, com os ministrados em Serviço Social. Contudo, rapidamente identificamos aquelas que nos distinguem claramente dos assistentes sociais e que são as ditas pedagógicas e/ou de intervenção mais directa com os grupos-alvo, por exemplo, as seguintes: “Sociologia da Educação”; “Psicologia do Desenvolvimento”; “Sociologia da Educação Não Formal”; “Educação Ambiental”; “Promoção Social e Cognitiva”; “Intervenção Socioeducativa”; “Promoção de Saúde - oportunidades, estratégias e práticas”; “Educação e Formação de Adultos”; “Dinâmica de Grupos”; “Metodologias de Animação Cultural”; “Animação de Crianças e Jovens”; “Animação de Adultos e Idosos”; “Expressão Dramática”; “Psicossociologia da Família” e/ou “Psicologia do Adulto e do Idoso”, entre outras. Nestas cadeiras, que não são poucas, não encontramos correspondência num currículo de serviço social. Se às cadeiras mencionadas, juntarmos ainda as que conferem a capacidade ao educador social de desenhar projectos socioeducativos como “Metodologias de Investigação em Ciências Sociais” (que Serviço Social também tem), “Desenho e Desenvolvimento de Projectos de Intervenção Socioeducativa” bem “Estatística” e outras está construído um perfil profissional que consideramos distinto dos demais existentes.

Numa exposição que já vai exageradamente longa sugiro-lhe ainda que veja uma edição do Instituto para a Qualidade na Formação (2005) intitulado “O sector dos serviços de proximidade: serviços de acção social - (Estudos Sectoriais: 24) onde é descrito, meticulosamente, a diferença entre os dois perfis profissionais. Neste trabalho, podemos encontrar, bem explicito a missão, o local de exercício da actividade, as condições de exercício, a área funcional, as actividades, as especificidades do mercado de trabalho e prospectivas das duas profissões. Por ser elucidativo, deixo-lhe o que é referido quanto à missão de cada perfil: Técnico Superior de Serviço Social – “Acolhe, informa e oriente os clientes/utilizadores, ajudando-os na resolução dos seus problemas ou encaminhando-os para respostas adequadas, promovendo o seu bem-estar e uma adequada inserção social” (anexo, p.11); Técnico Superior de Educação Social – “Presta apoio técnico de carácter sócio-cultural recreativo a comunidades, grupos e indivíduos em ordem à melhoria das suas condições de vida, participação, integração e promoção social, planeando, organizando e apoiando a realização de acções educativas em espaços sócio-comunitários” (anexo, p.13). É um documento bastante interessante que lhe deixara de forma bem patente aquilo que lhe tentei aqui dizer.

Por último, e porque pediu um exemplo prático, refiro-lhe a minha experiência de voluntário na Associação Portuguesa de Apoio à Vitima (APAV) durante o meu tempo de estudante. A APAV, tem essencialmente dois tipos de estruturas para dar resposta às vítimas. Uma, são os Gabinetes de Apoio à Vitima (GAV) onde as vitimas são atendidas e tem ao dispor técnicos para lhes concederem apoio jurídico, psicológico e/ou social. Depois, tem também as “Casas Abrigo” que são espaços para onde se encaminham as vitimas que estão sobre perigo de vida e onde se desenvolvem competências psicossociais. Eu fui voluntário num GAV onde, sem dúvida, eram muito mais eficazes os assistentes sociais pois grande parte do serviço era de reencaminhamento algo que vocês fazem muito melhor que os educadores sócias. No entanto, sabia da existência de assistentes sociais nas casas abrigo que tentavam desenvolver competências nas utentes. Efectivamente, este é um claro desaproveitamento de recursos mas que, infelizmente, verificamos no nosso Portugal nas mais variadas áreas. Contudo existem também outros casos em que a falta de verba das instituições faz com que estas não consigam ter todos os técnicos que gostariam e, por isso, verificamos por vezes técnicos que não tendo as competências académicas mais indicadas para determinadas funções tentam no terreno suprimir as carências de recursos da forma que podem. Por isso, e por tudo o que lhe disse atrás, considero um completo exagero falar em “usurpação de identidade profissional”. Os educadores sociais têm, quanto a mim, razões que cheguem e sobejem para se sentirem bem e orgulhosos na sua identidade profissional. Espero que, com esta extensa exposição, tenha conseguido fazê-lo entender as diferenças nas nossas formas de intervir. Fique bem claro que a intenção foi unicamente assinalar diferenças e nunca a superioridade ou maiores relevâncias. Considero que todos somos fundamentais e ainda somos poucos. Quanto às queixas que faz de mau profissionalismo em algumas situações, infelizmente, acontece em todas em todas as classes profissionais e a educação social naturalmente também não estará isenta. No entanto, acreditamos que será a excepção e não a regra e que não devemos extrapolar essas infelizes e pequenas amostras para o todo que é, indubitavelmente, diferente. Pelo menos, avaliando-se pelo feedback que temos das instituições onde trabalhamos e pelos níveis de empregabilidade que, comparado com outras realidades, poderemos considerar bastante elevados.

Com os melhores cumprimentos,

Nuno Cunha